As mãos dele estavam abertas ao lado do corpo, não fechadas em punhos. A respiração era estável, mas não calma. Havia algo mais ali. Algo contido à força. No pulso esquerdo, havia uma pulseira hospitalar desbotada, dessas que algumas pessoas guardam muito depois de não terem mais motivo. No bolso externo do colete, havia um desenho infantil dobrado, com as bordas gastas de tanto ser manuseado.
Por que um homem como aquele carregaria um desenho de criança?
Denise percebeu antes de querer.
E então percebeu algo ainda mais estranho.
Ele ainda não tinha olhado para a caixa de dinheiro.
Não tinha vasculhado os passageiros em busca de carteiras ou celulares.
Não tinha tentado controlar o ônibus inteiro.
Ele continuava olhando para o fundo — e toda vez que fazia isso, seu rosto ficava mais tenso, não mais irritado.
— Senhor — disse Denise, com a voz dura — desça do meu ônibus.
Ele balançou a cabeça uma vez.
— Não posso.
A palavra caiu mal.
Um homem bem-apessoado, de jaqueta azul-marinho, sentado três fileiras antes do fundo do ônibus, levantou-se parcialmente do assento e falou com a dignidade ferida de quem tenta parecer razoável em público.
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