Naquela tarde, apaguei as palavras “Narrador Não Confiável” do quadro branco enquanto meu último aluno de literatura saía do auditório.
— Não se esqueçam — gritei atrás deles. — A pessoa que conta a história nem sempre é a pessoa que diz a verdade.
Alguns alunos riram e, por um minuto silencioso, eu me senti eu mesma.
Então meu telefone vibrou.
Olhei para a tela.
“Venha ao nosso reencontro. Todos os nossos amigos estarão lá, inclusive seu ex-marido, Mark, agora meu noivo. Estamos realmente ansiosos para vê-la. XOXO, Miriam.”
Assim, num instante, eu tinha 17 anos de novo.
Sentei-me abruptamente e li a mensagem três vezes.
As palavras não mudaram.
Miriam tornou minha vida insuportável durante todo o ensino médio. Ela zombava dos meus suéteres comprados em brechós, dos meus livros da biblioteca e das minhas respostas cuidadosas nas aulas.
Ela me chamava de “Senhorita Perfeita” até que as pessoas pararam de usar meu nome.
Anos depois, encontrou Mark, meu marido, e lhe apresentou uma nova versão de mim: fria, crítica, difícil de amar. O tipo de mulher que fazia um homem se sentir pequeno.
Mark acreditou nela.
Quando percebi o que estava acontecendo, meu casamento já estava cheio da voz de Miriam.
Durante duas semanas, encarei aquela mensagem do reencontro todas as noites.
Minha amiga Claire me encontrou no escritório numa tarde.
— Apague isso — disse ela depois de ler a mensagem. — Você não vai.
— Se eu não for, ela vai dizer a todos que tive medo de aparecer.
— Então deixe que fale.
— Esse é o problema — respondi. — Eu sempre deixei.
Claire suavizou a expressão.
— Então não vá sozinha.
Naquela noite, abri meu notebook e fiz a única coisa que parecia fazer sentido para minha mente cansada e ferida.
Contratei um ator para ser meu acompanhante. Não um namorado. Não um acompanhante romântico.
Um ator, através de uma agência de talentos de verdade, para um evento social. Eu não precisava de romance. Precisava de alguém ao meu lado que ainda não tivesse ouvido a versão de Miriam sobre mim.
O nome dele era Norton, e nos encontramos dois dias antes do reencontro em uma cafeteria perto da universidade.
Ele chegou usando um blazer cinza, bonito o suficiente para me fazer considerar fugir pela porta dos fundos.
— Você é a Daphne? — perguntou.
— Infelizmente.
O canto de sua boca se curvou.
— É tão ruim assim?
— Estou contratando um estranho para me ajudar a sobreviver a um reencontro escolar. O que você acha?
— Justo.
Ele sentou-se à minha frente.
— Suas instruções foram claras. Sem romance falso, sem beijos, sem cenas de ciúmes.
— Sou professora de literatura inglesa — respondi. — Odeio ficção barata.
Ele riu, e eu relaxei um pouco.
— Então qual é exatamente o meu papel? — perguntou.
— Uma testemunha firme. Miriam me perseguiu durante anos. Depois ajudou a destruir meu casamento espalhando o mesmo tipo de mentira. Agora me convidou para vê-la ao lado do meu ex-marido.
A expressão de Norton mudou. Não era pena. Era atenção.
— Isso é cruel.
— Ela é muito boa em ser cruel.
— Não — continuei. — Não quero mentir mais do que o necessário. Só quero uma noite em que eu não me sinta pedindo desculpas por existir.
Norton assentiu.
— Então encare-a de volta quando ela olhar para você como se tivesse vencido.
Meus olhos arderam.
— Você faz isso parecer fácil.
— Eu não disse fácil. Eu disse possível.
Ele assinou o contrato.
— Testemunha firme — disse. — Sem grandes romances. Sem mentiras das quais não possamos voltar atrás. Temos um acordo, Daphne.
Na sexta-feira à noite, troquei de vestido três vezes antes de escolher o azul-marinho com o corte que me fazia sentir vista.
Quando Norton bateu à porta às sete horas, abri antes que pudesse perder a coragem.
No carro, ele olhou para minhas mãos trêmulas.
— Quer ensaiar?
— Não. Se eu ensaiar, vou parecer ensaiada. Eu era péssima em teatro.
Ao chegarmos à escola, a música escapava do ginásio. A faixa do reencontro estava pendurada sobre as portas.
Minha mão apertou a bolsa.
— Eu não consigo fazer isso.
Norton desligou o motor.
— Consegue. Mas não precisa fingir que é fácil.
Olhei para as portas iluminadas do ginásio.
— Ela quer que eu entre me sentindo pequena.
— Então não entre assim.
Então saí do carro.
Norton ofereceu o braço.
Eu o aceitei.
No instante em que entramos, as pessoas se viraram. Algumas cochicharam, e minha versão de 17 anos procurou desesperadamente a saída mais próxima.
Então Miriam apareceu.
Ela atravessou a multidão como se fosse dona do ambiente. Mark vinha logo atrás, mais velho do que eu lembrava e menos confiante do que eu esperava.
— Daphne — disse Miriam, abrindo os braços. — Você realmente veio.
— Vim.
Os olhos dela foram para Norton.
— Ora. Você trouxe alguém.
— Este é Norton.
Norton estendeu a mão.
— Prazer em conhecê-la.
Miriam ignorou o gesto e o examinou de cima a baixo.
— Alguém está fazendo trabalho voluntário.
Meu rosto esquentou.
Antes que eu pudesse responder, Norton inclinou a cabeça.
— Inveja é pecado, senhora.
Algumas pessoas próximas riram. O sorriso de Miriam vacilou.
Mark limpou a garganta.
— Você está bem, Daphne.
— Obrigada, Mark.
Ele lançou um olhar para Miriam.
— Fico feliz que tenha vindo.
Eu queria perguntar se ele alguma vez havia considerado que Miriam pudesse ter mentido.
Em vez disso, disse:
— É bom ver rostos familiares.
Miriam soltou uma risada suave.
— Ah, Daphne. Sempre tão cuidadosa.
Lá estava. A pequena agulhada.
Daphne cuidadosa. Daphne fria. Daphne difícil.
Mas desta vez eu não encolhi.
— Norton e eu vamos dar uma olhada na mesa dos anuários — falei e me afastei antes que ela pudesse responder.
Na mesa, o anuário estava aberto na página do clube de teatro. Miriam sorria no centro do palco. Eu estava em um canto segurando programas.
Norton aproximou-se.
— Você fazia teatro?
— Não. Eu escrevia as notas dos programas. Miriam dizia que eu tinha rosto para ficar nos bastidores.
Uma mulher ao lado da mesa olhou para mim.
— Daphne? Eu me lembro dessas notas. Eram engraçadas.
Pela primeira vez naquela noite, sorri com facilidade.
Norton murmurou:
— Viu? Nem todo mundo lembra da versão dela.
Durante quase uma hora, caminhei pela sala em vez de me esconder dela. Conversei com antigos colegas e até ri.
Então Miriam bateu numa taça de champanhe.
— Pessoal? — chamou do palco. — Posso ter a atenção de vocês?
Meu sorriso desapareceu.
Norton inclinou-se.
— Fique comigo.
Miriam ergueu o microfone.
— É maravilhoso ver rostos conhecidos esta noite. Velhos amigos, velhas memórias, velhas histórias.
Mark deu um passo à frente.
— Miriam. Não.
Ela sorriu ainda mais.
— E, falando em histórias, vamos esclarecer uma delas.
Minha mão apertou o copo.
— Antes que todos comecem a admirar o belo acompanhante da Daphne, vocês devem saber que ele não é namorado dela. Nem sequer é seu encontro.
As pessoas se viraram.
Miriam ergueu a taça.
— Ela pagou por ele.
O salão ficou em choque.
Alguém sussurrou:
— Meu Deus.
Miriam riu.
— Ela contratou um ator porque ninguém a escolheria de verdade.
Celulares se ergueram.
Olhei para Mark.
Ele encarava o chão.
— Diga alguma coisa — sussurrei, embora soubesse que ele não podia me ouvir.
Ele não disse nada.
Virei-me em direção à saída, mas Norton tocou meu cotovelo.
— A escolha é sua — disse baixinho.
Minha garganta queimava.
— Não consigo ficar ali enquanto riem de mim.
— Então não fique parada. Caminhe.
Olhei para Miriam, brilhando sob as luzes do ginásio como se já tivesse vencido.
Recusei-me a permitir isso.
Coloquei meu copo sobre a mesa.
— Não vim aqui para fugir.
Norton assentiu uma vez, subiu ao palco e pegou o segundo microfone.
— Miriam está certa sobre uma coisa — disse Norton. — Eu sou ator. Daphne me contratou através de uma agência profissional para acompanhá-la. Não como namorado. Não como algo vergonhoso. Como apoio.
Miriam revirou os olhos.
— Apoio. Que fofo.
Norton olhou para ela.
— Você já sabia quem eu era, Miriam.
O sorriso dela desapareceu.
— Eu não conheço você.
— Conhece, sim. Pense.
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