Durante doze anos, a vida de Margaret girou em torno de cuidar de sua mãe acamada. Mas quando um estranho apareceu de repente ao lado da cama de sua mãe, Margaret percebeu que a mulher que ela achava conhecer melhor estava escondendo um segredo grande o suficiente para mudar a família delas para sempre.
A chaleira apitou às cinco e quarenta e cinco. Servi duas xícaras, uma para mim e outra para Brenda, e ouvi o rangido suave da cama hospitalar de mamãe no corredor. A luz da manhã atravessava os azulejos da cozinha.
Brenda entrou sem bater.
— Você parece que não dormiu de novo, Margaret — disse ela, pendurando o casaco perto da porta.
— Eu dormi o suficiente.
— Então isso é um não.
Sorri para minha xícara. Doze anos de turnos duplos no escritório e turnos noturnos ao lado da cama de mamãe haviam deixado suas marcas no meu rosto.
— Como ela passou a noite? — perguntei.
— Tranquila. Comeu metade da torrada. Mas pediu que eu a deixasse sozinha por uma hora com o celular dela.
Levantei os olhos.
— O celular dela?
Brenda deu de ombros, parecendo confusa também.
— Ela tem feito isso mais vezes, querida. Pequenos momentos em que quer a porta fechada. Eu não fico perguntando.
— Mamãe mal sabe mandar mensagem.
— Pelo jeito, está aprendendo.
Eu ri. Mamãe estava acamada desde que eu tinha vinte e oito anos. O único mundo que ela tinha era aquele que eu construí ao redor dela.
Levei o chá dela pelo corredor e empurrei a porta.
— Bom dia, mamãe.
— Aí está minha menina — sussurrou ela. Sua mão, leve como papel, encontrou a minha sobre o cobertor.
— Brenda disse que você tem guardado segredos dela.
— Uma mulher da minha idade tem direito a alguns — disse mamãe, e seus olhos se enrugaram como costumavam fazer antes de tudo ficar difícil.
Inclinei-me e beijei sua testa. Ela cheirava a sabonete de lavanda e ao creme que eu passava em suas mãos todas as noites.
— Eu te amo — falei.
— Mais do que você imagina, Margaret.
Eu já estava olhando para o relógio. Oito e doze. O ônibus chegava às oito e vinte.
— Vou chegar tarde hoje — avisei, pegando minha bolsa. — Tenho uma reunião importante.
— Margaret — disse Brenda enquanto eu passava por ela na cozinha. — Ela realmente está diferente ultimamente. Mais quieta. Observando a porta.
— Ela está cansada, Brenda. Todos nós estamos cansados.
Beijei sua bochecha e saí para uma manhã perfeitamente comum.
Dois meses depois, a ligação veio enquanto eu estava no meio de uma pilha de notas fiscais no trabalho. A voz de Brenda tremia tanto que quase não a reconheci.
— Margaret, você precisa vir para casa. Agora.
Segurei o telefone com mais força.
— Brenda, o que aconteceu? Mamãe está bem?
— Sua mãe me mandou embora. — Um soluço escapou. — Tem um homem aqui. Eu não sei quem ele é para ela, mas ela escolheu ele em vez de mim. Doze anos, Margaret, e ela escolheu ele.
— Do que você está falando? Brenda, calma.
— Apenas vá. Veja com seus próprios olhos. Eu não consigo ser a pessoa que estará aqui quando você descobrir.
A ligação caiu.
Peguei minhas chaves. O caminho até casa passou diante dos meus olhos em uma névoa doentia. Doze anos de Brenda. Doze anos de confiança. E agora o quê? Um estranho no quarto da minha mãe?
Empurrei a porta da frente. A casa estava silenciosa. Silenciosa demais. Fui direto ao quarto de mamãe e abri a porta com força.
Então congelei.
Sentado na cadeira ao lado da cama dela estava um homem. Colete de couro preto. Uma barba que chegava ao peito. Tatuagens subiam pelo pescoço e cobriam as duas mãos enormes, uma delas segurando uma colher de sopa de frango, cuidadosamente direcionada aos lábios da minha mãe.
E mamãe. Minha mãe acamada, frágil e exausta estava sorrindo para ele como se ele tivesse colocado a lua no céu.
— Mamãe?
Ela se virou, e seu sorriso vacilou um pouco.
— Margaret. Você chegou cedo.
— Sim, cheguei. — Mantive meus olhos no estranho. — Posso falar com você a sós?
O homem colocou a colher de volta na tigela, limpou uma gota do queixo dela e se levantou.
— Vou estar no jardim, senhorita Margaret — disse ele calmamente.
Ele passou por mim. Esperei até ouvir a porta dos fundos fechar antes de me virar para minha mãe.
— Quem é ele? — sussurrei com raiva. — Mamãe, onde você encontrou esse homem? Brenda está chorando muito. Ela disse que você a demitiu.
— O nome dele é Louis.
— Isso não é uma resposta. Mamãe, olhe para ele. Tatuagens, um colete. Ele parece que acabou de sair de um...
— Margaret.
— E se ele roubar você? E se ele machucar você? No que você estava pensando ao deixar um completo estranho entrar nesta casa enquanto eu estava trabalhando?
— Ele não é um estranho para mim.
Parei.
— O que isso significa?
Ela não respondeu. Virou o rosto em direção à janela, em direção ao jardim, em direção a ele.
— Mamãe, por favor. Fale comigo. Brenda está conosco há mais de uma década. Você não pode simplesmente mandá-la embora e trazer um motoqueiro qualquer da rua.
— Ele vai ficar. — A voz dela ficou repentinamente firme, uma força que eu não ouvia havia anos. — Eu quero que Louis seja a pessoa que cuide de mim. Você entendeu, Margaret? Não importa o que aconteça.
Abri a boca. Depois fechei.
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